Tentar descrever em palavras tudo
que foi vivido nesses quatro dias de gravações me parece impossível no momento,
e, possivelmente, o será por toda a vida...
O “Inventário da Infância”
habitava meu interior desejoso por tanto tempo que, confesso, ainda não consigo
processar que ele, DE FATO, está chegando ao mundo!
Tenho muito orgulho de onde
venho, de onde nasci e onde vivo, e sempre tive dentro de mim o desejo de falar
mais sobre meu Bairro e, especialmente, sobre as pessoas que o fazem ser o que
é.
No Bairro de Fátima,
carinhosamente conhecido por Caixa D’água [ou CDA], temos um senso de
comunidade muito grande, um olhar coletivo para o fazer poético cotidiano que
me emociona. Este senso de olho no olho, de escuta ativa, de afeto que
transborda pelo toque, esteve muito presente nos dias de filmagem, tanto que
eu, enquanto diretor do curta, me surpreendi positivamente, pois, o engajamento
comunitário superou toda e qualquer expectativa que eu tinha para a feitura
deste filme!
Durante as filmagens não pude
deixar de me emocionar ao ver todos, adultos e crianças, se permitindo BRINCAR,
experienciar juntos momentos de partilha afetiva e comunitária. Uma frase dita
por uma das crianças segunda-feira, no último dia de filmagem, me pegou de jeito e
creio que simboliza muito da ideia por trás deste filme e seu processo de
materialização: “brincar é bom porque faz a gente se sentir LIVRE!”.
Tenho certeza de que tudo o que vivemos
nesses dias ficará eternizado para sempre, não só pela obra que resultará disso
tudo, mas, pelas marcas e memórias que se estabelecerão dentro das mentes,
corações e almas de cada membro da comunidade que se permitiu VIVER e
[re]encontrar sua infância.
Este documentário-inventário vem
com o desejo latente de tentar fazer isso: oportunizar aos
atores/apoiadores/equipe e espectadores um [re]encontro com a criança que
foram, com as crianças que são e, possivelmente, com as crianças que se
permitirão ser a partir do filme.
Nosso Bairro carrega consigo as
cores e os sons das brincadeiras que ainda são uma realidade marcante de nossas
esquinas e ruas... gostaríamos muito, muito mesmo, que cada um que assistir
essa obra seja tocado de alguma maneira, seja pela lembrança do que fazia, pelo
reconhecimento de si mesmo nas brincadeiras retratadas em cena ou pelo desejo
infantil que perdura no peito de se permitir a liberdade de brincar.
O brincar educa e o afeto ensina.
Todo o processo de realização do “Inventário
da infância” tem me ensinado, mais uma vez, a olhar para dentro para poder
enxergar de verdade o mundo à minha volta. Buscar ver as coisas com olhos de
criança: despidos de marcas, estigmas ou preconceitos.
Não sou bom em descrever
sentimentos ou explicar sensações, mas, com o pouco que consigo buscar em meu
repertório, gostaria de expressar minha sincera GRATIDÃO:
À Equipe IMA, por nos permitir
contar essa história [e por todo cuidado e afeto desprendidos ao longo do
processo];
À minha Mãe Rogéria, pela
parceria e apoio incondicionais;
E, principalmente, às Crianças e
Comunidade do Bairro de Fátima por terem abraçado o projeto de corpo, alma e
coração, fazendo com que ele adquirisse novas camadas afetivas.
SOMOS MEMÓRIA QUE INSISTE.


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